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Por Débora Mabaires, Buenos Aires

 

Faz um mês desaparecia Santiago Maldonado, o jovem artesão que estava com a comunidade mapuche quando o governo de Mauricio Macri iniciou uma brutal repressão aos habitantes da Lof Cushamen, na província de Chubut.

 

Os testemunhos manifestam ter visto Santiago pela última vez quando era arrastado por vários agentes da Gendarmeria Nacional, e subido a uma van dessa força de segurança.

 

Também indicam que durante a repressão em que os agentes do Estado dispararam impunemente contra homens da comunidade, viram camionetes brancas, pertencentes à fazenda Leleque, de propriedade de Carlo Benetton, o empresário têxtil italiano.

 

O administrador da fazenda de 90.000 hectares, Ronald Mc Donald, esteve reunido nos dias prévios à brutal repressão, com o chefe de gabinete do Ministério de Segurança da Nação: Pablo Nocetti, um advogado defensor de genocidas da última ditadura.

 

Houve pelo menos três reuniões prévias, e vários operativos da imprensa chamando os originários mapuches de “terroristas”. A Ministra da Segurança Patricia Bullrich, que participou em algumas dessas reuniões, chegou a dizer na imprensa e no Congresso  que os indígenas tinham conexões terroristas com as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia e com os curdos da Turquia). Também acusou a organização cultural “The Mapuche Nation”  com sede em Londres, de financiar o suposto terrorismo. Como prova de suas afirmações mostrou ferramentas de trabalho confiscadas dos indígenas: chaves de fenda, pregos, martelos e serrotes. O que a Ministra não disse é como obtiveram essas ferramentas que ela denominou “armas”, porque o juiz Guido Otranto sempre negou ter autorizado uma invasão de domicílio nas propriedades dos mapuches.

 

Porém, o juiz também não está fazendo muita coisa para achar respostas. Demorou 16 dias em registrar as delegacias da Gendarmeria para onde Santiago Maldonado poderia ter sido enviado; não solicitou fazer o seguimento do celular do jovem, que poderia permitir saber o percurso que o aparelho fez; demorou mais de 20 dias em averiguar quem eram os membros da Gendarmeria que entraram na comunidade; não tomou as medidas cabíveis para preservar a testemunha protegida que todos conhecemos graças à que a Ministra da Segurança deu até seu número de documento diante da imprensa; e também não processou a funcionária por expor a vida do rapaz.

 

Os operativos de parte da imprensa culpabilizando os indígenas, ou o próprio desaparecido, continuam, tanto nos jornais e canais de televisão, como também nas redes sociais através de grupos de trolls que administra o Governo de Macri.

 

A evidente conivência judicial, política e empresarial no desaparecimento de Santiago Maldonado, mostram com clareza que a Argentina regrediu no tempo despertando os piores fantasmas da nossa história.

 

Na sexta-feira 1 de setembro foram realizadas marchas no país todo, sendo a maior, a de Buenos Aires, na Praça de Maio.

 

Milhares de corações sentiram a dor de ver as Mães da Praça de Maio gritar, de novo, a consigna “Aparecimento com vida e punição aos culpados”.

 

A marcha tinha sido completamente pacífica, e a desconcentração se produziu por volta das 19 horas.

 

Às 21, quando ainda restavam alguns manifestantes e jornalistas independentes locais, chegaram vários encapuzados, organizados, que começaram a causar confusão como jogar pedras e botar fogo em lixeiras. Nenhum deles foi preso pelas forças de segurança, o que demonstra que, evidentemente, eram grupos pertencentes a serviços de inteligência. Em vez de prendê-los, reprimiram violentamente as pessoas que ali se encontravam, incluindo um casal de estrangeiros que passava. Também levaram presos jornalistas por estar filmando, que se encontram incomunicados até hoje, segunda-feira.

 

O Presidente, enquanto os argentinos reclamavam para ele por Santiago Maldonado, tirava uma foto em uma sorveteria.

 

Os argentinos e argentinas seguimos perguntando: Onde está Santiago Maldonado?

 

fonte: Desacato.info

Tradução: Tali Feld Gleiser