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Por Raul Fitipaldi

 

Com uma percepção razoável da política compreende-se que o julgamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Porto Alegre tem um marco social e político que excede o próprio evento, sem desconhecer que se trata de um fato histórico no Brasil.

 

Não é um fato isolado dentro da agenda dos setores econômicos nacionais e internacionais e do roteiro de Washington para a América Latina e o Caribe, depois de algo mais de uma década de administrações progressistas, de diversa intensidade, na região.

 

Se observa que a mobilização a caminho de Porto Alegre em defesa do ex-presidente é grande. É natural que o Partido dos Trabalhadores e as siglas aliadas foquem seu discurso e ações só no assunto do julgamento. Mais um julgamento aberrante num país cuja legalidade está manchada por um golpe parlamentar, jurídico e exponencialmente midiático, que assombra pela explícita desfaçatez dos poderes fatual e real e dos funcionais que os representam, incluso no executivo nacional usurpado.

 

Isso tudo começa no laboratório estratégico instalado por Washington, os banqueiros e as multinacionais, em Honduras, que se alastrou pelo Paraguai, Brasil e regimes como o de Maurício Macri na Argentina ou de traição planejada, como é o de Lenín Moreno no Equador. Todos aos que se acrescenta agora o governo de Sebastián Piñera no Chile. Sem esquecer, é claro, a trajetória dantesca de Peña Nieto no México e os acordos entre conservadores e fascistas peruanos.

 

A perseguição de políticos do campo progressista, mesmo que alguns tenham sido claudicantes praticando alianças que a história sempre demandará (como a do PT e o PCdoB com o PMDB), tem objetivos maiores que em muito superam o alvo representado por dirigentes partidários e as siglas que representam. A perseguição é, mais uma vez à classe trabalhadora, empregada e desempregada, com o aditamento da perseguição a todos os setores frágeis da sociedade, numa agressão racista, etnocida e sexista, que soma um leque infinito de fobias.

 

Os golpistas obtiveram as vitórias da terceirização e a destruição da CLT, matérias difíceis de serem compreendidas pela população em geral. Com a munição diversionista que a mídia sócia e construtora do golpe colocou a serviço da propaganda governamental, o golpismo conseguiu destruir conquistas históricas da classe trabalhadora.

 

É claro que também debilitaram a organização sindical de cara à grande e mais canalha de todas as contrarreformas. Agora a organização golpista vai pela mãe delas: a Reforma da Previdência. É o roubo maior, a maior transferência de capital limpo para a especulação bancária, através da privatização da previdência e a alavanca da consolidação da escravidão a futuro, perseguida pelo neoliberalismo desde seus primórdios.

 

Os argumentos diários que o governo expõe na mídia canalha sugerem o fim de supostos “privilégios” de um setor dos assalariados e esconde o ataque aos trabalhadores públicos e o tiro de misericórdia ao coração do Estado – mesmo burguês, pois nem sequer esse Estado toleram se ele voltar a ser minimamente assistencial.

 

Porém, o problema que encontram desta vez é que essa contrarreforma foi compreendida mais rapidamente pela população. Ela é fácil de entender. Ou seja, não será engolida de forma serena e, certamente, haverá que reprimir movimentos sociais e população em geral, de forma explícita e na rua. Os protestos podem ser inevitáveis, massivos e intensos em tempo e quantidade.

 

Porto Alegre faz parte, além do julgamento do ex-presidente Lula, dessa realidade. O poder ilegítimo precisa rapidamente medir forças no espaço natural das lutas, a rua. Tem que dimensionar taticamente os espaços de disputa territorial e criar as estratégias de dissuasão e hipercontrole. Isso independe, em parte, do resultado do julgamento, embora, a decisão final pode antecipar fatos e engatar esse ato com os protestos prévios à votação de 19 ou 20 de fevereiro da Reforma da Previdência.

 

Os limites da agenda eleitoral para 2018 e o desgaste do golpismo que poderá sugerir o adiamento das eleições e a generalização de escaladas de violência social contra o poder fatual, fazem com que o poder real exija garantias dos golpistas visíveis. Nesse sentido é bom lembrar que quem estrutura as garantias são os mecanismos de repressão e controle social e, mais uma vez, a mídia que oculta ou superdimensiona segundo convenha aos seus interesses. O Poder Judiciário interessa pouco nessa altura dos acontecimentos e fica na dependência do interesse das elites, mais ainda quando majoritariamente está atrelado ao processo de golpe e ataque às classes baixas, assim com à entrega da soberania nacional.

 

Observar os movimentos, antes, durante e depois de Porto Alegre é imprescindível para prevenir o que pode acontecer durante quase 30 dias que serão, por muitos motivos, históricos para o Brasil.

 

Fonte: Desacato.info