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Nos jornais impressos analisados, espaço disponibilizado para colunas é quase o mesmo - às vezes maior - do que o dispensado às notícias.

Por Carolina Maingué e Fernanda dos Santos Felizari, estudantes de jornalismo na UFSC

“As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do jornal”. Essa frase, que consta no final de cada coluna do jornal Hora de Santa Catarina, não se faz presente no Diário Catarinense e nem no Notícias do Dia, os outros dois impressos de maior relevância que circulam diariamente em Florianópolis. Ainda assim, é a ideia que parece sobressair sobre o assunto para a maioria dos veículos de comunicação.

Em tempos de avalanche de informações, a coluna visa apresentar uma interpretação da realidade para orientar o leitor, defendeu Iluska Coutinho em versão da sua dissertação de mestrado em Comunicação e Cultura, na Universidade de Brasília (UnB). Mas se torna preocupante observar que o espaço disponibilizado para o colunismo no jornal impresso é quase igual ou até maior do que o dispensado às notícias. Em levantamento feito com os três jornais de maior circulação de Santa Catarina (Diário Catarinense, Notícias do Dia e Hora de Santa Catarina), entre os dias 7 a 11 de maio, foi possível avaliar essa divisão.

Ao abrir qualquer um desses três jornais, o leitor ou leitora se depara, logo na primeira página, com relatos ou opiniões de colunistas: não se sabe muito bem o que é o quê, visto que é permitido, a esse gênero de escrita, utilizar-se de discursos proselitistas ou permeados somente por um ponto vista, em detrimento da amplitude e da pluralidade de informações. Diante de um conteúdo majoritariamente opinativo, cabe questionar: quando as empresas de comunicação dão espaço somente para tendências discursivas muito parecidas, ainda podem ser isentas de responsabilidade ao afirmar que “As opiniões contidas não refletem necessariamente a do jornal”?

Na última quarta-feira (09/05), a edição impressa do Diário Catarinense continha cerca de dez páginas de colunismo e nove páginas de notícia (considerando-se um infográfico sobre esportes, de uma página inteira, como conteúdo noticioso). O resto consistia no Editorial, anúncios, jogos, previsão do tempo e avisos de licitação. Nesse dia, o colunista Marcelo Fleury escreveu, entre outros assuntos, sobre a importância do Brasil ter um presidente negro.

Na coluna, o viés de combate ao racismo, estruturalmente arraigado à constituição do país, vem no entanto atrelado de um “Não importa a economia, o Banco Central ou o Congresso. Importa um presidente negro no país mais racista do mundo”. Esse ponto é importante de ser frisado porque, por mais que possa haver sensibilização a pautas como a do Movimento Negro, economicamente o que se relata no colunismo dos jornais analisados é uma tendência ao liberalismo e ao desmonte do serviço público, como comentaremos depois.

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Nessa mesma edição, Moacir Pereira enfatiza como a greve dos servidores municipais, encerrada em 11/05, culminou em prejuízos à população catarinense. O Notícias do Dia, também na quarta-feira, veiculou por meio do colunista Felipe Alves que “quem sofre são os pais e mães de alunos da rede pública diariamente e os que precisam de UPAs e postos de saúde”. Em nenhum dos casos, é avaliado o porquê da greve, assunto abordado em outro comentário para o Objethos feito por nossos colegas Victor Lacombe e Carol Gomez.

No ND de quarta, das oito páginas e meia de colunismo em contraponto às nove páginas e meia de notícia, um texto de Altair Magagnin relata opiniões de Joaquim Barbosa, ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal, que desistiu de concorrer à presidência, contra ações que podem ser consideradas conservadoras. Segundo o colunista, “Barbosa apontou, em entrevista ao jornal O Globo, três preocupações (…): Jair Bolsonaro (PSL) ser eleito presidente, Temer continuar no poder e a instauração de novo regime militar.”

Junto a essa coluna, de caráter aparentemente mais progressista, e à coluna já citada que criminalizava a greve, uma outra, assinada pelo Ministro do Turismo, Vinicius Lummertz, fala sobre como o comunismo é uma “psicopatia ideológica”. Essa ideologia, para ele, “insiste em viver em Florianópolis”, capital onde inclusive se “presencia o Chavismo”. O colunista não explica no que se basearam as informações de que a cidade tem um “viés socialista”, que de acordo com ele deve ser combatido. Quando ele fala que o socialismo gera “pobreza, coerção física e mental” em Pyon Yang (Coreia do Norte), Havana (Cuba) e Caracas (Venezuela), não há dados comparando os índices de fome, miséria, escolaridade e diferentes formas de repressão nessas cidades e em outras cidades capitalistas, por exemplo. Lummertz é político, ministro do governo Temer, logo seu texto, neste caso, é pura retórica.

Já no Diário Catarinense de quinta-feira (10/05), nove páginas foram dedicadas ao colunismo e apenas cinco páginas às notícias. Nessa edição, logo nas primeiras páginas, Marcelo Fleury dá continuidade à sua coluna do dia anterior sobre racismo e, em seguida, há três comentários do colunista lamentando a atitude dos Sindicatos de desobedecer à Justiça no caso da greve dos servidores que havia sido negociada no dia anterior. Fleury, simplesmente, esbarra no senso comum: “Caro professor, se você escolheu essa profissão, dê o seu melhor. Ganha pouco? É injusto, concordo. Professores deveriam ser os mais bem remunerados. Mas não fique refém de sindicatos que não têm compromisso com a educação. Você tem! Faça disso um sacerdócio!”. Além dos comentários, mais uma vez não há nenhuma matéria no jornal que discuta o fim da greve, seus rumos e consequências, apenas opiniões que não orientam o leitor, uma vez que não há mais informações.

Ainda na quinta-feira, o Notícias do Dia, que trazia seis páginas de colunismo e sete páginas de notícia, veiculou uma matéria de página inteira sobre a negociação do fim da greve, mas seu quadro de opinião caracterizava o acordo como “um prêmio não merecido”. A linha de discursos na mídia catarinense desenha uma mesma imagem para o movimento dos servidores. O gênero jornalístico da coluna, ainda que seja de pouca densidade noticiosa, teria o objetivo de fomentar as discussões, mas é preciso questionar a quem esse material tem sido direcionado, pois as colunas observadas parecem apenas repetir o que seu público majoritário – classe média e média alta – já pensa.

O Hora de Santa Catarina, por sua vez, durante o período analisado concentrou uma publicação dividida entre notícias, colunas, esportes, variedades, anúncios e classificados. A cobertura tem maior foco nos problemas cotidianos dos bairros de Florianópolis e Região Metropolitana, e difere um pouco da linha dos outros dois jornais. As colunas seguem o propósito de ser mais uma conversa sobre o que está acontecendo no dia a dia das pessoas: buracos na ruas, praças mal cuidadas, divulgação de projetos e jogos da semana. Se pegarmos como base as colunas dos dias já tratados acima, quarta (9) e quinta (10/5), elas possuem pouco conteúdo explicitamente político.

Mas de maneira geral, o que podemos concluir é um colunismo local com predominância nos discursos de desmonte do serviço público. Os ataques à greve dos servidores municipais, que tinha como principal pauta negar que Organizações Sociais pudessem administrar creches e Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) antes restritas ao município, é apenas um exemplo.

Na segunda-feira (07/05), um texto no Notícias do Dia assinado por Carlos Rodolfo Schneider, coordenador do Movimento Brasil Eficiente, fala sobre o suposto rombo de R$ 268 bilhões na Previdência e sugere o enxugamento desse serviço pelo governo. Já a edição de sexta (11/5) do Diário Catarinense exibe logo na primeira página a coluna “Do que morre o catarinense”, de Marcelo Fleury. Não obstante a menção às doenças que ocupam os primeiros lugares no ranking, o colunista deixa explícito que todos esses óbitos ocorreram em unidades do SUS, o que coloca em xeque a relevância do Sistema – longe de ser perfeito, mas que quase nunca tem seus pontos positivos avaliados ou destacados pela mídia tradicional.

Diante desta narrativa adotada pelas publicações, como é possível que seja dito que as opiniões contidas em uma coluna não refletem necessariamente a do jornal? Nesse cenário é fundamental repensar o viés e a credibilidade que atingiu a atividade do colunismo dentro dos meios impressos, e reafirmar o compromisso jornalístico de prezar pela informação consistente e profunda aos cidadãos e cidadãs.

*Para facilitar a análise quantitativa, páginas com anúncios ou outros conteúdos em duas colunas padrão foram consideradas meia página, para fins de contabilizar tanto colunas quanto notícias.

**Este artigo foi produzido na disciplina Crítica do Jornalismo, que motiva os estudantes a desenvolverem capacidades de leitura crítica sobre os veículos jornalísticos locais. O texto foi elaborado por meio de análise dos jornais impressos Diário Catarinense, Hora de Santa Catarina e Notícias do Dia, observados no período de 07 a 11 de maio de 2018.

Fonte: ObjETHOS

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