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Por Elaine Tavares. 
Na última semana o estado de Santa Catarina foi assombrado pela notícia de que Esperidião Amin estaria disposto a concorrer para o governo do estado. Veio aquela sensação de que o tempo parou. Os anos passam e os personagens da política não mudam. A poucos meses da eleição, os nomes apresentados e suas respectivas possibilidades mostram o caráter conservador das propostas e do eleitorado. Não é sem razão que Santa Catarina é o estado no qual o provável candidato da direita, Jair Bolsonaro, tem maior índice de aprovação.  A oligarquia segue firme, praticamente sem sombra.
 
Santa Catarina é a sexta economia do país, tem quase sete milhões de habitantes e ostenta uma produção bastante pungente, sendo o quarto estado em número de indústrias de transformação. Registra um número bastante significativo de trabalhadores na indústria, um total de 813 mil. O setor de vestuário é o que mais emprega gente, seguido pelo ramo de alimentos. Ao todo são dois milhões e 273 mil postos de trabalho (dados de 2016), sendo que os empregos formais se concentram em Florianópolis, Joinville, Itajaí e Blumenau.
 
O estado se destaca internacionalmente na exportação de frango, soja, tabaco e motores. Mas também é forte em suínos, blocos de cilindros, motocompressores herméticos e embutidos. Suas exportações chegaram, em 2015, segundo a Fiesc, a 7,1 bilhões de reais. E esses ramos de negócio conformam os blocos de poder que dominam também a vida política do estado. O mundo rural e as regiões de Joinville, Blumenau e Criciúma.
Essa geografia dos negócios em Santa Catarina tem apresentado pouquíssima alteração ao longo dos anos e por conta disso os governadores que são eleitos sempre representam esse empresariado. Os trabalhadores, que são a maioria, preferem manter seus patrões no poder, não deixando abertura para candidaturas que representem de fato os seus interesses.
Para esse ano, nada de novo. Um dos prováveis candidatos, na onda do “jovem empresário” é João Paulo Kleinubing, do DEM, que vem da cidade de Blumenau e é filho de um ex-governador. Pode ser cabeça de chapa ou pode compor. Ele já foi prefeito na cidade de Blumenau.
O PSD anunciou Gelson Merisio, deputado estadual, que tem origem no oeste do estado, e é bastante conhecido sendo também presidente do partido.
O PP lançou então o nome de Esperidião Amin, em alta outra vez, até porque sua mulher, Angela Amin deverá sair para o Senado e o filho, João, para deputado federal.
O PSDB foi buscar seu candidato também em Blumenau, e os nomes estão entre o atual prefeito Napoleão Bernardes e o senador Paulo Bauer, este de triste memória dos tempos em que foi Secretário de Educação.
Muito provavelmente todo esse campo à direita encontrará formas de compor, podendo até apresentar uma chapa de consenso.
O MDB deverá escolher entre Pinho Moreira (Criciúma), atual governador, Mauro Mariani (deputado federal – Planalto Norte) ou Udo Döhler ( prefeito de Joiville). Aí também nada de novo, a mesma velha política que já colocou o estado no atraso ambiental e corroeu a vida dos trabalhadores.
O PT deverá escolher o advogado e professor Décio Lima, de Blumenau, atualmente deputado federal, embora o nome do desembargador Lédio Rosa de Andrade tenha ganhado força nos últimos meses. Pode haver algum acerto. Mas, tanto um quanto outro são nomes de pouca expressão estadual.
O PSOL lançou o nome do jornalista Leonel Camasão, com pouca trajetória política, encaminhando seus melhores nomes para cargos como deputado estadual e federal. O PCB apresentou a socióloga Caroline Bellaguarda para uma possível aliança com o PSOL, como vice.
O PSTU também já tem seus candidatos, em princípio com chapa fechada, são a professora Ingrihd Assis, para o governo e o professor Ederson Silva, para vice.
Pela raia dos ainda sem partido corre também o empresário Luciano Hang, dono da Havan, que nos últimos meses fez bastante sucesso com a direita raivosa ao se somar ao protesto dos caminhoneiros. Certamente se vier, virá pela direita.
Há pouquíssimas chances de o estado sair da mesma velha prática oligárquica e atrasada de sempre, até porque o debate sobre a realidade de Santa Catarina praticamente inexiste nos meios de comunicação, com a população totalmente desinformada sobre a grande política.
Segundo o professor Lauro Mattei (UFSC), que é um estudioso da realidade catarinense, a tendência é de o controle do estado ficar polarizado entre os grupos de direita tradicional (DEM, PP, PSDB) e o MDB, sem que a população se aproprie da discussão do debate sobre a dívida pública, por exemplo, que vem crescendo e que já apresenta sua conta para a população. Segundo Mattei, recentemente o governo retirou volumes da Celesc para cobrir contas, bem como cortou 300 milhões de reais da Secretaria de Educação, também para cobrir rombo das contas públicas.
O déficit que o novo governador encontrará passa dos dois bilhões de reais, e um dos pontos centrais do debate nas eleições deveria ser esse. Afinal, a população será chamada a pagar essa dívida como sempre acontece.
 
Os problemas do estado e os desafios dos que vão governar
Os últimos indicadores do estado de Santa Catarina, divulgados pela Secretaria da Fazenda apontam quais são as regiões e municípios que estão melhores ou pior colocadas no que eles chamam de “competitividade”, e que na verdade mostram quem está melhor ou pior posicionado no atendimento à população em temas básicos como saúde, educação e segurança.
No plano geral, estão mais bem posicionados os municípios de Florianópolis, Blumenau, Jaraguá do Sul, Joinville, Concórdia, Itajaí e Criciúma. Os municípios da região Oeste ficam, boa parte, nos últimos lugar, excetuando Chapecó.
No quesito educação básica, destacam-se os municípios de São Miguel do Oeste, Jaraguá do Sul, Itapiranga e Joinville, ficando São Joaquim, Caçador e Campos Novos em último lugar. No atendimento à saúde, Florianópolis está em primeiro lugar, até porque concentra o maior número de hospitais, e é seguida por vários municípios do oeste do estado. Planalto serrano fica no fim da fila.  Quando o tema é segurança pública os municípios do oeste ficam no alto e Florianópolis assume a rabeira, junto com Itajaí, Joinville e Chapecó (de novo exceção no oeste).
No quadro que analisa a proporção de pobres é interessante observar que o município com maior número de pobres em relação à população é justamente Lages, a cidade de Raimundo Colombo, até bem pouco tempo o governador do estado, na qual quase 30% ganha até meio salário mínimo. Nesse quesito, as cidades do oeste também apresentam número elevado de famílias com baixa renda. Conforme o professor Lauro Mattei esse desequilíbrio é histórico e estrutural, não mudando um centímetro ao longo dos anos.
O que se percebe olhando os dados é que justamente nas regiões representadas pelos políticos que estão no poder, estão as populações que mais sofrem problemas e são as que apresentam maior abismo entre os ricos e pobres. Isso mostra claramente que ao assumirem os postos de mando esses políticos não representam a maioria, mas sim pequenos grupos de interesse, para onde canalizam os recursos.
Os nós a serem desatados
Apesar de ser incensada como a “europa brasileira”, o que por si só já é uma grande bobagem, Santa Catarina não é o paraíso. E para pensar o futuro desse estado existem pelo menos dois grandes pilares que precisam ser desvendados para a população: a dívida pública, que vem crescendo nos últimos anos. Cresceu 23,5% de 2013 a 2016, durante o chamado “Pacto por Santa Catarina” e o projeto Mais Santa Catarina, em andamento há uma década, que captou cerca de oito bilhões de dólares do Banco Mundial (perto de 24 bilhões de reais) e do qual não se tem acesso às informações.
Segundo o professor Lauro Mattei, da UFSC, o fato de o estado ter uma dívida pública grande não seria um problema em si, pois com a contratação de dívidas o estado realiza investimentos que contribuem para a formação de um estoque de capital com a construção de hospitais, rodovias, portos etc… Mas, quando a dívida é contratada para resolver questões emergenciais, coloca um problema para as gerações futuras, que são as que terão de arcar com o pagamento de algo que não lhes beneficiará. Além disso, ao servir de “desculpa” para cortar gastos em áreas importantes como saúde, educação, segurança e moradia, também penaliza a população.
Sobre o programa Mais Santa Catarina o professor afirma que paira um véu, sendo praticamente impossível conhecer os detalhes dos investimentos. Onde estão sendo aplicados, como e com qual critério. Nada disso é conhecido. Por outro lado, esse recursos não foi dado a Santa Catarina a fundo perdido. Essa dívida terá de ser paga e é com isso que o novo governador vai se encontrar.  É muito importante a população conhecer as informações sobre o endividamento do estado porque será ela a que acabará pagando a conta, com as mesmas velhas políticas de ajuste e austeridade, causando prejuízos à educação, saúde e segurança, os três pilares básicos para o bem viver.
Fonte: Desacato.info