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Por Elaine Tavares. 

 

Tenho lido nas redes sociais alguns comentários sobre a questão dos meninos da Tailândia que ficaram presos numa caverna. Durante semanas o mundo esteve com os olhos lá naquele longínquo lugar. Uma corrente de bons pensamentos e desejos de salvação. Pessoas de mais de 40 países, profissionais de mergulho e de salvamento, para lá foram, no intuito de tirar com vida todos os meninos e o professor. Foi uma corrente do bem mundial. Duvido que alguém tenha ficado imune. E ontem, quando finalmente todos saíram vivos da cova, o planeta inteiro respirou aliviado. É certo que um mergulhador morreu na batalha. E ficará na memória de todos como um herói. Saman Kunan é seu nome, inscrito para sempre no coração daquele grupo que vivenciou o terrível drama.

 

Terminado o resgate surgem as perguntas: e por que o mundo não se comove com a situação dos meninos e meninas presas nos Estados Unidos? Por que não se comove com a tragédia das crianças palestinas, presas e assassinadas todos os dias? Por que não se comove com os jovens negros que caem nas comunidades de periferia do Brasil, sob o fogo do estado? Por que não se comove com as crianças que vivem em zona de guerra?

 

Também me pergunto sobre isso. Por quê?

 

Arrisco um palpite. As crianças na Tailândia sofreram um revés da sorte. Uma tragédia provocada por ninguém. Entraram na caverna e veio a chuva, e o inesperado aconteceu. Não havia quem culpar. Nem mesmo o professor. As cavernas são visitadas cotidianamente, poderia ter acontecido com qualquer um.

 

Já as demais crianças sobre as quais clamamos, não. Essas tem sua história construída pela mídia e pela ideologia. Os palestinos não são crianças, são terroristas. As crianças latinas presas nos EUA não são crianças, são filhas de criminosos, logo, criminosas também. Os meninos negros nas periferias são ladrões e bandidos em potencial. E as crianças nas guerras estão tão distantes, são estatísticas. Não têm nome nem sobrenome.

 

Essas crianças todas pelas quais nosso coração e nossa razão clamam, estão obscurecidas pela construção ideológica que os poderosos fazem delas. E assim, as pessoas que ocupam apenas sua consciência ingênua não se compadecem. Na verdade, as temem. E, por isso, acabam aceitando a ideia de que é preciso prendê-las ou matá-las.

É uma realidade cruel. Mas, é a realidade construída pelo capitalismo, na qual aquele que não se rende aos encantos da mercadoria ou não se curva diante do pequeno grupo de poder, acaba sendo transformado em vilão.

 

As crianças pelas quais nós também choramos e clamamos são inimigas do capital: migrantes empobrecidos, comunidades oprimidas, moradores de lugares que o capital quer pegar para si. Por isso sobre eles se constitui um véu. Para o capital, as inocentes vítimas da Tailândia não representam qualquer perigo. Por elas pode-se chorar e se desesperar. Por elas pode-se regozijar na hora da salvação. Já os demais, não. Esses são perigosos.

 

E assim, as pessoas que são inoculadas com essas construções ideológicas acabam se recusando à generosidade. Para clamar pelos migrantes, há que se comprometer contra o poder. Para clamar pelas crianças das guerras, há que comprometer contra as nações centrais que fazem a guerra, para clamar pelas crianças presas no México, na Palestina, nos Estados Unidos, há que se comprometer contra o poder desses governos. Para clamar pelos negros que tombam na periferia há que se comprometer contra o governo que promove o massacre.

 

Clamar pelos meninos da Tailândia não exige nada. Só a piedade individual. Isso é fácil.

 

Cá no meu cantinho, no sul de uma pequena ilha do sul do mundo acompanhei com apreensão o drama dos meninos tailandeses. Chorei com a morte do mergulhador e vibrei com o final vitorioso. Mas, como um animal político que sou, eu me comprometo com a luta contra o capital e assim, sigo clamando e denunciando todas as violências e crimes que se cometem contra crianças, jovens e adultos em todo mundo. Como dizia el Chê: enquanto houver um injustiçado, com ele estarei.

 

E, mais que clamar, vamos construindo, o novo mundo, que virá.

 

Posso entender essa generosidade seletiva das gentes, porque estão obnubiladas pela ideologia. Muitos sequer se dão conta disso. Mas, sei que mudar isso exige trabalho e luta. E é por aí que vamos! Há um mundo para transformar. E a grande caverna do capitalismo para derrubar. Haveremos de sair…

 

 

Elaine Tavares é jornalista.

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