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Por Isadora Stentzler

 

“Não acreditamos que nosso camarada Marcelino cometeu suicídio! Seu sangue clama por justiça!”, bradou a plenos pulmões Zigue Timm, do Fórum de Lutas em Defesa da Vida por Justiça e Cidadania, ao lado de um banner com a imagem do professor e ex-vereador Marcelino Chiarello, encontrado morto em sua casa no dia 28 de novembro de 2011. Na terça-feira (12), quando se comemorava o aniversário de vida do ex-vereador, militantes e representantes de movimentos sindicais se uniram na praça Coronel Ernesto Bertaso e lançaram o Julgamento Popular que deve pressionar autoridades para reabertura do inquérito que investiga a morte de Marcelino e para denunciar “as arbitrariedades e erros do judiciário” no caso.

 

O psicólogo Lucas Guerra, de 26 anos, caminhava entre as cerca de 100 pessoas que acompanharam o ato com uma bandeira LGBT pendurada em sua bolsa tiracolo. Com ela, lembrava do dia em que Marcelino deu voz à classe LGBT, indo contra os vereadores da Câmara que se negaram em aprovar uma lei que combateria à homofobia na cidade, um ano antes de sua morte. “Quando falaram que ele se suicidou, eu pensei: ‘Jamais!’ Ele investigava e estava investigando demais. Como iria se matar nessa época?”, reverberou.

 

Como ele, representantes dos movimentos de luta levavam na memória as conquistas que Marcelino, às vezes na mesma praça em que estavam no entardecer de hoje, travou por seus direitos.

 

Aglomerados, o grupo contestava a versão de homicídio do professor e ex-vereador e se uniram para, por Julgamento Popular, chamar a atenção do judiciário a fim de que o caso seja reaberto.

 

O juiz de direito e relator de Direitos Humanos, Luiz Jorge Silva Moreno, que atuou em casos semelhantes no Maranhão e Bahia, organizou a ação que começou na tarde de hoje com envio de mil cartas à Procuradoria Geral da República (PGR), e assinadas por membros da sociedade civil. Nela, é manifestada a “insatisfação quanto às investigações realizadas” no caso de Marcelino junto do pedido que o Ministério Público “tome medidas necessárias”.

 

“Vamos pressionar e mostrar que em Chapecó há uma sociedade indignada diante das omissões e fraudes que permearam as investigações da morte de Marcelino e que levaram ao arquivamento do caso”, destacou Moreno.

 

Segundo ele, além dos envios de cartas, deve ser aberto em Chapecó um Observatório de Justiça e Cidadania para discussão do caso em que devem ser apresentados os detalhes da investigação e que, se acordo com Moreno, revelam “os desmandos da operação”. As ações devem se estender até junho, quando pretendem terminar de enviar 15 mil cartas à PGR, e realizar um julgamento popular com autoridades ligadas aos Direitos Humanos.

 

Um dos amparos do grupo são três laudos que atestam morte por suicídio – contra dois que alegam homicídio. “A morte de Marcelino foi uma grave violação aos direitos humanos e mostra que a cidade conservadora inibe sua classe de luta. Não podemos deixar isso ser silenciado”, frisou Moreno.

 

 Caso

 Marcelino foi encontrado morto às 12h do dia 28 de novembro de 2011 pela esposa e o filho, pendurado pelo pescoço em uma janela do quarto de visitas da casa em que vivia.

 

O primeiro laudo cadavérico, feito em janeiro do ano seguinte pelo médico Antônio de Marco, sugeria que o ex-vereador cometera homicídio. Um mês depois foi divulgado o parecer técnico do Instituto Geral de Perícias (IGP) que refutava o laudo cadavérico, atestando suicídio nas causas mortis. No mesmo período, o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) solicitou participar das investigações e, em março, o parecer da junta médica solicitado ao Instituto Médico Legal (IML) reforçou a hipótese de suicídio.

 

No ano seguinte, quando a Polícia Federal já havia aderido ao caso, foi solicitado um novo laudo ao Instituto Nacional de Criminalística. Este também apresentou suicídio entre as causas, porém, um parecer feito pelo técnico Daniel Muñoz, da Universidade de São Paulo (USP), foi contra os três documentos anteriores e apontou morte por homicídio.

 

O caso foi arquivado pela 1ª Vara Criminal de Chapecó em 29 de junho de 2015.

 

Mas para os militantes, ainda é preciso falar do assunto já que a pergunta “quem matou Marcelino” não foi respondida.

 

Fonte: Jornal Voz do Oeste.